quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Life on the go - Especial Oktoberfest


1.176 km. Esta é a distância que que viajei neste último final de semana (apenas a ida). É a distância de Belo Horizonte até Blumenau, que é quase que irrisória se comparada aos 13.552 km de distância entre BH e Omsk, na Rússia, onde fiquei um mês. Para chegar a Omsk, saí de Torino de ônibus até Milano, onde peguei um avião até Moscou, com conexão em Praga. De Moscou, peguei o trem Transiberiana, onde viajei por 43 horas até, finalmente, chegar a Omsk. Várias cidades, vários fusos, várias horas de espera... Com exceção dos vários fusos e guardadas as devidas proporções, ir para Blumenau não foi tão diferente.

Não é novidade pra ninguém que viajar no Brasil é caro. Ir de avião direto para Joinville ou Navegantes (os aeroportos mais próximos à Blumenau) é ainda mais caro. Uma alternativa: Curitiba. Como tenho amigos em Curitiba, aproveito para fazer um ligeiro "stopover". Foi assim em 2014 e neste ano. Saí de casa às 9h da manhã para pegar um voo para São Paulo no aeroporto de Confins. Depois de quase morrer do coração com uma turbulência e arremetida, cheguei em São Paulo, onde esperei por quase 4 horas até pegar o segundo voo para Curitiba. Nesse tempo, cometi o erro de almoçar uma Pizza Hut, o que me lembrou porque eu odeio Pizza Hut (ou Pão Hut, porque aquilo não é massa de pizza). Detalhe: uma fatia de pizza/pão e um chop: 44 golpes. Outro detalhe: os dois voos da LATAM (em BH e SP) atrasaram. Cheguei na casa do meu amigo em Curitiba já era noite. Pra relaxar, um vinho e a primeira maravilha gastronômica do passeio: a sempre boa comida da Márcia, mãe do Rafa e do Lucas. Uma balada Curitibana, uma cochilada e logo cedo o ônibus pra Blumenau. 

É claro que todos aproveitaram a viagem para dormir. Exceto eu. Como sempre, não consigo dormir em transportes (carro, avião, etc.) - exceto quando tomo umas porque né? Quatro horas de viagem. Quatro horas lendo meu Dexter, ouvindo música, conversando no zap zap, pensando na morte da bezerra... Enfim, Blumenau. E aí a segunda maravilha gastronômica do passeio: comida típica alemã. Sempre vejo reações de espanto quando digo que a cozinha alemã é uma das minhas três preferidas - as outras são a mineira e a italiana, é claro. Faltariam-me palavras para explicar diante do buffet típico do restaurante Moinho do Vale, com muito chucrute, salsichas diversas, marreco recheado, pato e o meu querido eisbein (joelho de porco). Além da cerveja artesanal e fiel à lei da pureza para acompanhar. Barriga cheia, mais cerveja, desfile maravilhoso e... Nada de dormir. Mas pra que dormir? É tão perda de tempo, ainda mais com uma Vila Germânica lotada de fritz e fridas (especialmente os meus Burrões mais queridos) e com a Banda Cavalinho tocando. Sem contar a quarta maravilha gastronômica: cervejas artesanais locais e mais comida alemã. Espetinhos de salsichas e a famosa batata recheada daí! 

Após mais um cochilo rápido, outro ônibus, o da volta pra Curitiba. Mais 4 horas de luta contra e a favor do sono. Em Curitiba, um almoço rápido no Madero e a quarta maravilha gastronômica. Uma caneca de chop congelada e um hambúrguer (hambúrguer! Não lanche!!!) com quase 400 gr de carne mal passada e 37 fatias de bacon. Do Madero, praticamente direto para o aeroporto. Mais uma espera até o voo da Avianca, este pontual. Um outro quase infarto ouvindo o jogo do Cruzeiro x Vitória com penalti no fim, o streaming falhando na hora da cobrança e a aeromoça mandando desligar os celulares para decolar. Mas não infartei, não derrubei o avião e o Cruzeiro não tomou gol. De Curitiba a São Paulo, o avião mal tem tempo de subir e já tem que descer. E foi um pouso incrível, que depois meu amigo especialista no assunto Flavão explicou que é chamado "pouso manteiga" e não é seguro e nem recomendado. Mas tudo certo em Guarulhos, de onde fui direto para a minha quinta e última maravilha gastronômica do final de semana: a pizza veramente italiana da Pizzaria Leggera Pizza Napotelana, em São Paulo. Melhor pizza que comi fora da Itália e, inclusive, melhor que algumas que comi lá. E além do sabor incrível, é barato! Apenas 35 golpes uma pizza maravilhosa inteira só pra você. 

Depois da pizza, mais um breve cochilo em São Paulo, de onde saí na segunda-feira às 7h da manhã rumo à BH. E de BH, pra Betim trabalhar. Afinal, chi lavora, mangia. Tudo isso aconteceu em um final de semana. Pode ser cansativo (e é!), mas é gratificante e revigorante. Esses momentos de lazer, especialmente reencontrando amigos, me motivam e tornam a vida mais leve. E, enquanto eu tiver energia e condições, eu vou. Por que a vida é muito mais interessante no modo go

E a música de hoje reflete bem este sentimento. É da Banda Cavalinho, de Blumenau, minha preferida da Oktoberfest. Tem festa? Me chama que eu vou!

Banda Cavalinho - Tendo festa eu vou






quarta-feira, 13 de julho de 2016

Aquela velha roupa colorida



Às vezes me pego pensando em algumas palavras - ou temas - que me intrigam, perseguem. Outrora (e ainda agora) o tempo, hoje, a mudança. Conectados, porém esparsos. A vida é uma eterna e persistente mudança. Que bom (e que ruim) né? Seria muito monótono e chato se não o fosse. Sem mudança não há crescimento. Mas mudanças são também rupturas. Abandonar o velho para dar lugar ao novo. E isso às vezes dói. Principalmente quando é forçado, inesperado. É como se ninguém nunca estivesse pronto. E nunca estará mesmo.

Minha vida é circundada por mudanças. Geográficas, físicas, espirituais, psicológicas, pessoais, profissionais... Cada mudança, por mais que desejada (como a Itália, por exemplo) foi um desafio pessoal e cada um deixou dois principais legados: o crescimento e a saudade. O crescimento, pois uma cabeça que se abre, jamais retornará ao tamanho original. E a saudade. Ah a saudade... É tão difícil se desprender do passado e aceitar que algo acabou. Mas se nada acabasse, nada de novo começaria. E sempre vem algo de novo, algo de bom. Cada fase é importante, cada fase é inesquecível e, por que não, eterna. O famoso "eterno enquanto dure".

Mudar é abdicar. Quero roupas novas, mas não quero abdicar das velhas que trazem tantas recordações. Quero amizades novas, mas não quero abdicar de nenhum círculo social e seus eventos. Quero um amor novo, mas não quero abdicar das aventuras e da liberdade. Quero um trabalho novo, mas não quero deixar minha estabilidade. Quero morar no exterior, mas não quero deixar o Brasil. Aí, entre escolhas e renúncias, você vê que chega um momento em que não cabe. E não são só as roupas que não cabem mais no seu guarda-roupas - ou em você -, nem as recordações nas caixas - ou em sua memória. Não cabem mais pessoas. Não cabem mais alguns conceitos. Não cabe mais você.

Aí você percebe que, para continuar, precisa mudar, renovar. Precisa deixar o que é velho e não te cabe para trás. E você muda. Muda, cresce, reinventa. Rejuvenesce. E nesse ciclo infinito de mudanças, você vai ficando traquejado, calejado. Ainda assim, você nunca estará preparado. E mesmo não preparado, saberá reconhecer o momento de mudar novamente. O mais importante, é enfrentar a mudança e olhar pra frente, com a certeza de que algo bom vem de novo. Às vezes melhor. No mínimo, acalento.

Meu compositor e cantor preferido - Belchior - cantou sensatamente: "O que há algum tempo era jovem, novo, hoje é antigo. E precisamos todos rejuvenescer". Então, hoje, esta bela canção, que prefiro chamar de inspiração. Porque, no presente, o corpo, a mente, é diferente. E o passado é uma roupa velha, que já não nos serve mais.

Belchior - Velha Roupa Colorida


sexta-feira, 4 de março de 2016

Peguei meus trem e fui viajar de coisa



Começo o texto com a piadinha infame sobre o "dialeto mineirês". Pra mineiro, tudo é trem. Dizem que, certa vez, o mineirim estava na estação esperando o trem pra ir passar suas férias no litoral capixaba (Guaraparis, é claro). Quando aquele bichão enorme se aproximava fazendo "piuí piuí", o caboclo virô pra muié e disse: Ô muié, junta os trem que a coisa invém. Pois então, fui andar de coisa pela primeira vez em Minas Gerais.

Há algum tempo que já tinha essa ideia de ir para Virginópolis (caputi mundi, a terrinha) de trem. Mas como? O trem de passageiros da Vale que faz o trecho Belo Horizonte-Vitória passa pelo Vale do Rio Doce e identifiquei a estação mais próxima de Virginópolis: Frederico Sellow em Cachoeira Escura (distrito de Belo Oriente). De lá até a terrinha são 80 km e muitas curvas, em tempo, aproximadamente 1 hora. Quando meu amigo italiano Mattia resolveu vir pra Minas, passar o natal com a gente em Virginópolis, vi como oportunidade perfeita para fazer esta viagem. Uma amiga goiana também acenou com a possibilidade de vir. Não pestanejei e comprei os bilhetes.

Pra ida comprei classe econômica (executiva já estava esgotada) e pra volta consegui executiva. Aí que percebi: comprei a "volta" como Belo Horizonte-Belo Oriente novamente. Mas por que raios uma cidade tem que chamar Belo Oriente? Para cancelar tive que ligar no "Alô Ferrovia" e ficar uns bons duns minutos confirmando todos os dados das passagens, mesmo tendo informado o localizador. Mas consegui cancelar e por sorte consegui a volta (desta vez correta) ainda em classe executiva. No fim das contas, minha amiga goiana não veio e uma amiga conterrânea quis pegar as passagens. Fizemos o trato e, como bom brasileiros que somos, deixamos a troca de titularidade dos bilhetes pra última hora. Mas eu imaginava que seria um procedimento simples pela internet ou pelo telefone. Doce ilusão. Mais dor de cabeça, informações desencontradas, atendimento péssimo e quase que minha amiga não pôde embarcar. Mas, no fim, o jeitinho brasileiro resolveu tudo e embarcamos.

Tirando o amadorismo que gera estresse, se bem planejada (dependendo o menos possível da Vale, além de que da própria viagem) a viagem compensa. É muito barato - paguei R$ 32,00 a ida em classe econômica e R$ 56,00 a volta em classe executiva. Se fosse de ônibus seria mais de R$ 80,00 um trecho. É confortável - ar condicionado, serviço de bordo (cobrado a parte) e tomadas para carregar celular e notebook mesmo na classe econômica e as poltronas da classe executiva são bem largas e macias. Além de que não balança como ônibus. É seguro - você não fica preocupado com acidentes, especialmente naquela 381 terrível. Não consegui dormir por preocupação com as malas. Se roubam até na Itália e Alemanha, no Brasil... É pontual - exceto atrasos em minutos por causa de embarque e desembarque, se não acontecer algum problema com o trem ou a linha, você sabe que vai chegar no horário (ou próximo dele). Não tem que contar com o congestionamento e com a sorte. É bonito - as paisagens mineiras são belíssimas e você pode apreciá-las. Serras, matas virgens, fazendas, e o rio que um dia foi doce. Essa foi uma parte triste da viagem, ver o que fizeram com o nosso Rio Doce. Ah! Tem também os eucaliptos que dominam (e enfeiam) a nossa paisagem ao aproximar-se de Belo Oriente.

Para quem mora em cidades onde o trem passa ou com estação muito próxima, não tem nem discussão: o trem é a melhor opção. Para quem precisa ir um pouco mais longe das estações, ainda assim pode valer a pena. Por exemplo, levei 5 horas e meia até Cachoeira Escura e mais 1 hora até Virginópolis - 6 horas e meia no total. Com essas obras na 381, juntamente com o congestionamento tradicional de feriados, chega-se a levar 7, 8 horas para ir de BH a Virginópolis e região. Vale a pena, se planejar com antecedência. As passagens se esgotam muito rápido em épocas de feriados. E se comprar pela internet, tem que trocar o voucher pela passagem antes de embarcar. E a quem se interessar, tem um taxista muito simpático (e de sotaque extremamente forte) que faz a viagem de Cachoeira Escura até Virginópolis por R$ 150,00. Se forem 4 pessoas pra dividir, ainda sai mais barato que o Saritur de BH pra VGP.

Enfim, valeu como experiência. E pra matar a saudade de andar de trem. Nós, brasileiros, temos mania de valorizar só o que é de fora. Não vou comparar as paisagens de Minas e do seu Vale do Rio Doce, com as da Toscana e seus campos de girassol, porque simplesmente não dá. Cada uma tem sua beleza, sua história. Vão me acusar de bairrismo, mas, cada vez mais, concordo com o hino: quem te conhece não esquece jamais. Oh Minas Gerais! Fiquem com esta bela (e muito verdadeira) canção e as mais belas ainda imagens dessa terrinha inigualável.

Renato Teixeira - Oh Minas Gerais