Começo o texto com a piadinha infame sobre o "dialeto mineirês". Pra mineiro, tudo é trem. Dizem que, certa vez, o mineirim estava na estação esperando o trem pra ir passar suas férias no litoral capixaba (Guaraparis, é claro). Quando aquele bichão enorme se aproximava fazendo "piuí piuí", o caboclo virô pra muié e disse: Ô muié, junta os trem que a coisa invém. Pois então, fui andar de coisa pela primeira vez em Minas Gerais.
Há algum tempo que já tinha essa ideia de ir para Virginópolis (caputi mundi, a terrinha) de trem. Mas como? O trem de passageiros da Vale que faz o trecho Belo Horizonte-Vitória passa pelo Vale do Rio Doce e identifiquei a estação mais próxima de Virginópolis: Frederico Sellow em Cachoeira Escura (distrito de Belo Oriente). De lá até a terrinha são 80 km e muitas curvas, em tempo, aproximadamente 1 hora. Quando meu amigo italiano Mattia resolveu vir pra Minas, passar o natal com a gente em Virginópolis, vi como oportunidade perfeita para fazer esta viagem. Uma amiga goiana também acenou com a possibilidade de vir. Não pestanejei e comprei os bilhetes.
Pra ida comprei classe econômica (executiva já estava esgotada) e pra volta consegui executiva. Aí que percebi: comprei a "volta" como Belo Horizonte-Belo Oriente novamente. Mas por que raios uma cidade tem que chamar Belo Oriente? Para cancelar tive que ligar no "Alô Ferrovia" e ficar uns bons duns minutos confirmando todos os dados das passagens, mesmo tendo informado o localizador. Mas consegui cancelar e por sorte consegui a volta (desta vez correta) ainda em classe executiva. No fim das contas, minha amiga goiana não veio e uma amiga conterrânea quis pegar as passagens. Fizemos o trato e, como bom brasileiros que somos, deixamos a troca de titularidade dos bilhetes pra última hora. Mas eu imaginava que seria um procedimento simples pela internet ou pelo telefone. Doce ilusão. Mais dor de cabeça, informações desencontradas, atendimento péssimo e quase que minha amiga não pôde embarcar. Mas, no fim, o jeitinho brasileiro resolveu tudo e embarcamos.
Tirando o amadorismo que gera estresse, se bem planejada (dependendo o menos possível da Vale, além de que da própria viagem) a viagem compensa. É muito barato - paguei R$ 32,00 a ida em classe econômica e R$ 56,00 a volta em classe executiva. Se fosse de ônibus seria mais de R$ 80,00 um trecho. É confortável - ar condicionado, serviço de bordo (cobrado a parte) e tomadas para carregar celular e notebook mesmo na classe econômica e as poltronas da classe executiva são bem largas e macias. Além de que não balança como ônibus. É seguro - você não fica preocupado com acidentes, especialmente naquela 381 terrível. Não consegui dormir por preocupação com as malas. Se roubam até na Itália e Alemanha, no Brasil... É pontual - exceto atrasos em minutos por causa de embarque e desembarque, se não acontecer algum problema com o trem ou a linha, você sabe que vai chegar no horário (ou próximo dele). Não tem que contar com o congestionamento e com a sorte. É bonito - as paisagens mineiras são belíssimas e você pode apreciá-las. Serras, matas virgens, fazendas, e o rio que um dia foi doce. Essa foi uma parte triste da viagem, ver o que fizeram com o nosso Rio Doce. Ah! Tem também os eucaliptos que dominam (e enfeiam) a nossa paisagem ao aproximar-se de Belo Oriente.
Para quem mora em cidades onde o trem passa ou com estação muito próxima, não tem nem discussão: o trem é a melhor opção. Para quem precisa ir um pouco mais longe das estações, ainda assim pode valer a pena. Por exemplo, levei 5 horas e meia até Cachoeira Escura e mais 1 hora até Virginópolis - 6 horas e meia no total. Com essas obras na 381, juntamente com o congestionamento tradicional de feriados, chega-se a levar 7, 8 horas para ir de BH a Virginópolis e região. Vale a pena, se planejar com antecedência. As passagens se esgotam muito rápido em épocas de feriados. E se comprar pela internet, tem que trocar o voucher pela passagem antes de embarcar. E a quem se interessar, tem um taxista muito simpático (e de sotaque extremamente forte) que faz a viagem de Cachoeira Escura até Virginópolis por R$ 150,00. Se forem 4 pessoas pra dividir, ainda sai mais barato que o Saritur de BH pra VGP.
Enfim, valeu como experiência. E pra matar a saudade de andar de trem. Nós, brasileiros, temos mania de valorizar só o que é de fora. Não vou comparar as paisagens de Minas e do seu Vale do Rio Doce, com as da Toscana e seus campos de girassol, porque simplesmente não dá. Cada uma tem sua beleza, sua história. Vão me acusar de bairrismo, mas, cada vez mais, concordo com o hino: quem te conhece não esquece jamais. Oh Minas Gerais! Fiquem com esta bela (e muito verdadeira) canção e as mais belas ainda imagens dessa terrinha inigualável.
Renato Teixeira - Oh Minas Gerais
